segunda-feira, 14 de outubro de 2019

CENA 16

(Manhã de domingo. Uma projeção sobe em resistência mostrando uma viela de Assis. Ouve-se o repicar de sinos. Francisco e Irmão Leão entram felizes e sorridentes. No centro da cena, Francisco abaixa-se e beija o chão)

FRANCISCO
COMO É BOM ESTAR DE VOLTA À MINHA QUERIDA ASSIS!... PROMETE-ME UMA COISA, LEÃOZINHO?

IRMÃO LEÃO
COMO PODERIA NEGAR-TE ALGO, SENHOR!

FRANCISCO
SE EU MORRER EM OUTRO LUGAR, FAÇA TUDO PARA QUE EU SEJA ENTERRADO AQUI!

(Antes da resposta de Irmão Leão entra Clara, vestida de branco, acompanhada por uma Aia. Clara traz uma rosa junto ao peito. Ela se surpreende com a presença de Francisco, que igualmente surpreso abaixa a cabeça, cobre-a com o capuchino e se esconde atrás de Irmão Leão)

CLARA
(aproximando-se de Francisco)
FRANCISCO?... NO QUE TE TRANSFORMASTES, FRANCISCO?...
 NÃO TENS VERGONHA DE ANDAR NESSES TRAJES?

FRANCISCO
POR QUE DEVERIA?

CLARA
NÃO PENSAS EM TEU PAI, EM TUA MÃE... NÃO PENSAS EM MIM?...
POR ONDE ANDAS, FRANCISCO?... QUANDO PENSO EM TI MEU CORAÇÃO SE DILACERA...

FRANCISCO
(Da as costas para Clara, afasta-se dela até a boca de cena e apenas sussurra)
TAMBÉM O MEU...

CLARA
(Chega mais perto e dobra-se para fitar o rosto de Francisco)
TU TAMBÉM PENSAS EM MIM, FRANCISCO?

FRANCISCO
(Meneia a cabeça repetidas vezes)
EU?... EU...

(Clara leva as mãos ao rosto e começa a chorar. A vem ao seu amparo)

AIA
VAMOS, FILHA, JÁ É HORA DE VOLTARMOS.

(Clara se deixa confortar pela aia, mas antes de saírem de cena, Clara para, volta-se para Francisco tira a rosa do peito e a joga aos seus pés)

CLARA
SE TUDO ENTRE NÓS ACABOU, FRANCISCO, FIQUE AO MENOS COM ESTA ROSA PARA QUE TU TE LEMBRES DE MIM E TAMBÉM DESTE MUNDO!

(Em seguida Clara e a Aia saem de cena. Silêncio. Francisco então descobre a cabeça lentamente)

FRANCISCO
ELA SE FOI?

IRMÃO LEÃO
SIM, SENHOR.

FRANCISCO
(Pega a rosa com carinho, com ambas as mãos. Em seguida beija-a e a entrega a Irmão Leão)
NÃO MEREÇO ESTA ROSA, LEÃOZINHO. AFASTE-A DO CAMINHO PARA QUE NÃO A PISOTEIEM.

(Irmão Leão toma a rosa das mãos de Francisco e a atira delicadamente para dentro da coxia)

FRANCISCO
(Respira fundo e faz um solene sinal da cruz)
ESSE ENCONTRO NÃO FOI UM BOM PRESSÁGIO, AMIGO. SINTO O PEITO OPRIMIDO!

IRMÃO LEÃO
QUE DEUS ME PERDOE, DOM FRANCISCO, MAS ACHO QUE A MOÇA TEM RAZÃO. TU E ELA...

FRANCISCO
(Interrompendo)
CASAR, TER FILHOS, FORMAR UM LAR? ORA, LEÃOZINHO, O HOMEM QUE SE DISPÕE A SERVIR A DEUS DEVE ESTAR PRONTO PARA ULTRAPASSAR OS LIMITES DO SER HUMANO!

(Nesse instante entra Dom Bernardone e para ao perceber a presença de Francisco. Ambos hesitam. Francisco cobre novamente  a cabeça com o cappuccino).

IRMÃO LEÃO
ÂNIMO, DOM FRANCISCO, NÃO ESMOREÇAS EM TUA CORAGEM.

DOM BERNARDONE
(Punho erguido. avança na direção de Francisco)
ORA, SEU...

FRANCISCO
(Com um gesto de mão estendida interrompe a ação de Dom Bernardone)
ACALMAI-VOS, DOM BERNARDONE! ENQUANTO ME AMALDIÇOAS, ESTE IRMÃO ME BENDIZ.

(Em seguida toma uma das mãos de Irmão Leão e a beija)
ELE ME AMA E PROTEGE COMO UM VERDADEIRO PAI.

(Dom Bernardone se arrepende, leva as mãos ao rosto e chora. Depois enxuga as lágrimas com o avesso da manga. Abaixa a cabeça por um instante e se dirige a Francisco em tom conciliador)

DOM BERNARDONE
TU NÃO TENS DÓ DE TUA MÃE, FRANCISCO?
ELA CHORA NOITE E DIA POR TI. VEM PARA CASA, ELA PRECISA VER-TE!

FRANCISCO
ANTES DEVO PEDIR LICENÇA A DEUS.

DOM BERNARDONE
MAS QUE DEUS É ESSE QUE SEPARA O FILHO DA PRÓPRIA MÃE?

FRANCISCO
(Confuso, leva as mãos à cabeça)
NÃO SEI, NÃO SEI... SÓ DESEJO PEDIR A ELE...

(Dom Bernardone leva a mão direita à boca, abafando as maldições ou soluços. Fica inerte por um instante, depois se vira e sai lentamente de cabeça baixa. Francisco o acompanha com o olhar)

FRANCISCO
ACABO DE TOMAR UMA DECISÃO, IRMÃO LEÃO! VOU PARA AQUELA GRUTA PRÓXIMA DA PORCIÚNCULA. PRECISO FICAR A SÓS COM DEUS POR ALGUNS DIAS. APENAS EU E ELE.

IRMÃO LEÃO
IREI CONTIGO, SENHOR. PERMANECEREI À PORTA DA GRUTA ZELANDO POR TI.

FRANCISCO
DESTA VEZ NÃO, LEÃOZINHO.
TU FICARÁS AQUI, ONDE NÃO TE FALTARÁ A CARIDADE DE UM PEDAÇÃO DE PÃO!

IRMÃO LEÃO
E POR QUANTO TEMPO FICARÁS SOZINHO, DOM FRANCISCO?

FRANCISCO
(Abraça Irmão Leão)
APENAS POR TRÊS DIAS, MEU IRMÃO... ATÉ BREVE.

(Francisco sai de cena lentamente. Irmão Leão faz o sinal da cruz. As luzes caem em resistência)

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