CENA 19
(Ainda no escuro um praticável representando o altar da Capela de Nossa Senhora dos Anjos, a Porciúncula, é colocado no canto esquerdo da cena. Destaque para uma pintura de Maria Santíssima, vestida de azul claro, pés descalços sobre uma tênue lua crescente e alguns anjos rechonchudos. Em uma pequena mesa, um evangelho aberto. Um foco de luz tênue em resistência incide sobre Francisco e Irmão Leão que aparecem ajoelhados diante do altar)
FRANCISCO
AQUI ESTAMOS, SENHOR, DIANTE DE NOSSA SENHORA DOS ANJOS.
(Ambos fazem o sinal da cruz e se levantam. Irmão Leão como que retira teias de aranha do caminho. Súbito é surpreendido por Francisco que lhe agarra o braço)
FRANCISCO
VEJA, LEÃOZINHO, O EVANGELHO ABERTO SOBRE A MESA!
IRMÃO LEÃO
QUER QUE EU O LEIA, SENHOR?
FRANCISCO
SIM, É A PALAVRA DE DEUS QUE ESPERAMOS. LÊ EM VOZ ALTA!
(Francisco vai até o centro da cena. ajoelha-se e abaixa a cabeça. Irmão Leão lê o evangelho)
IRMÃO LEÃO
“‘E QUANDO TIVERDES PARTIDO, PREGAI DIZENDO: ‘APROXIMA-SE O REINO DOS CÉUS’... NÃO LEVEIS NADA, NEM PRATA, NEM COBRE EM VOSSOS CINTOS. NEM SACO PARA A VIAGEM, NEM DUAS CAMISAS, NEM SAPATOS, NEM BENGALAS’
FRANCISCO
(Cabeça para o alto, de olhos fechados)
SIM, SENHOR, NÃO LEVAREMOS NADA, NADA. NADA!...
SEJA FEITA A TUA VONTADE E NÃO A NOSSA!
(Francisco tenta levantar-se. Irmão Leão o ampara. Abraçados caminham até a boca de cena)
FRANCISCO
(Tira as sandálias e as mostra para Irmão Leão, antes de atirá-las para a coxia)
OUVISTES, IRMÃO LEÃO, NEM SAPATOS...
(Irmão Leão também tira as suas sandálias e as atira para a coxia)
FRANCISCO
(Aponta para o alforje carregado por Irmão Leão)
NEM ALFORJE...
IRMÃO LEÃO
(Hesitante, abraça o alforje firmemente)
TAMBÉM O ALFORJE, DOM FRANCISCO?
FRANCISCO
NÃO OUVISTE, IRMÃOZINHO: NEM SACO PARA A VIAGEM, NADA!...
IRMÃO LEÃO
DEUS EXIGE MUITO DO HOMEM... POR QUE É TÃO DESUMANO CONOSCO?
FRANCISCO
PORQUE ELE NOS AMA, LEÃOZINHO, NÃO LASTIMES!
IRMÃO LEÃO
NÃO LASTIMO, SENHOR... MAS SINTO FOME!
FRANCISCO
(Compadecendo-se)
ENTÃO COME AGORA O QUE POSSAS, MEU LEÃOZINHO FAMINTO, EU TE ESPERAREI.
(Irmão Leão senta-se no chão, abre o alforje e toma um pedaço de pão para comer. Enquanto isso Francisco se aparta, e fala consigo mesmo, absorto. Irmão tenta comer, mas não consegue e põe o pedaço de pão de volta no alforje)
FRANCISCO
(Como quem fala consigo mesmo)
SIM, DEUS TEM RAZÃO!...
ATÉ HOJE SÓ NOS PREOCUPAMOS CONOSCO, COM A NOSSA ALMA E A NOSSA PRÓPRIA SALVAÇÃO. MAS SÓ ISSO NÃO BASTA! CUMPRE TAMBÉM LUTAR PELA SALVAÇÃO DO PRÓXIMO, POIS SE NÃO O SALVARMOS NÃO PODEREMOS NOS SALVAR... ESSA É A NOSSA MISSÃO!...
IRMÃO LEÃO
JÁ NÃO SINTO MAIS FOME, SENHOR!
FRANCISCO
(Como se não tivesse ouvido as palavras de Irmão Leão)
CONGREGUEMOS EM TORNO DE NÓS O MAIOR NÚMERO POSSÍVEL DE IRMÃOS COM BOCAS CAPAZES DE PREGAR, COM CORAÇÕES CAPAZES DE AMAR E COM PÉS CAPAZES DE MARCHAR EM NOME DE DEUS. SEREMOS OS NOVOS CRUZADOS E O SANTO SEPULCRO QUE LIBERTAREMOS SERÁ A ALMA DE TODOS OS HOMENS!
IRMÃO LEÃO
DO QUE ESTÁS FALANDO, SENHOR?
FRANCISCO
DA NOSSA MISSÃO, LEÃOZINHO!
TU E EU JÁ NÃO SOMOS SUFICIENTES PARA ESSA TAREFA. NECESSITAMOS DE UMA LEGIÃO!
VAMOS, IRMÃO LEÃO, DEUS NOS AGUARDA!
(Francisco vira-se e sai caminhando resoluto. Irmão Leão levanta-se trôpego para seguir Francisco. Esquece o alforje no chão. Volta-se, pega o alforje, beija-o com carinho e com muita dó o atira na direção da coxia. Caem as luzes em resistência. Ambos saem de cena)


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