segunda-feira, 14 de outubro de 2019

CENA 07

(No escuro, as cortinas que cobriam partes da capela de São Damião são retiradas e ela aparece restaurada. As luzes sobem em resistência. Francisco e Irmão Leão estão soerguendo a cruz, no centro do altar)

FRANCISCO
QUAL SERÁ O SIGNIFICADO DISSO TUDO, IRMÃO LEÃO?

IRMÃO LEÃO
O SIGNIFICADO DE QUE, SENHOR?

FRANCISCO
DO QUE FAZEMOS, MEU IRMÃO. O MUNDO MUDOU OU MUDEI EU? CAMINHO SOBRE A TERRA, NO ENTANTO SINTO-ME COMO SE FLUTUASSE. PERCEBESTE COMO ESTOU FELIZ? COMO CHORO E RIO AO MESMO TEMPO? NÃO ME CONTENHO DE ALEGRIA, LEÃOZINHO!

IRMÃO LEÃO
TALVEZ PORQUE SE SINTA MAIS PRÓXIMO DE DEUS, DOM FRANCISCO?

FRANCISCO
QUE DEUS TE OUÇA, LEÃOZINHO!

(Súbito entra Dom Bernardone, colérico, ofegante, apoiando-se em uma bengala)

DOM BERNARDONE
ENTÃO É PARA CÁ QUE TU VENS EM VEZ DE SE OCUPAR DO NOSSO COMÉRCIO?

FRANCISCO
SEJA BEM-VINDO, DOM BERNARDONE. A QUE DEVEMOS A SURPRESA DE SUA VISITA?

DOM BERNARDONE
MINHA LOJA TAMBÉM ESTÁ EM RUINAS. PRECISO DE TI PARA RESTAURA-LA!

FRANCISCO
INFELIZMENTE NÃO RESTAURO LOJAS COMERCIAIS. PELO CONTRÁRIO, SE POSSÍVEL, EU AS DESTRUO.

(Padre Antonio surge por detrás da capela e passa a observar a cena assustado)

DOM BERNARDONE
(Ameaçando Francisco com a bengala)
POR ACASO NÃO ME RECONHECES? SOU TEU PAI E TE ORDENO QUE VOLTES!

FRANCISCO
COM TODO RESPEITO, DOM BERNARDONE, SÓ DEUS É MEU PAI, MAIS NINGUÉM!

DOM BERNARDONE
E QUEM SOU EU ENTÃO?

FRANCISCO
ÉS DOM BERNARDONE, RICO COMERCIANTE DE ASSIS, QUE ACUMULA OURO EM SEUS COFRES E TIRAS DOS POBRES EM VEZ DE VESTI-LOS.

DOM BERNARDONE
(Punho cerrado, na direção de Francisco)
ORA, SEU...

(Diante da possibilidade de Dom Bernardone atacar Francisco, Padre Antonio intervém)

PADRE ANTONIO
TENHA CALMA, DOM BERNARDONE, SEU FILHO APENAS TRABALHA AQUI ENQUANTO SE RECUPERA DA DOENÇA TERRÍVEL QUE QUASE O MATOU.

DOM BERNARDONE
MAS DEVERIA TRABALHAR PARA MIM. NO ENTANTO, PREFERE ESBANJAR O MEU DINHEIRO.

PADRE ANTONIO
(Tira uma bolsinha do hábito)
À PROPÓSITO, DOM BERNARDONE, AQUI ESTÁ O DINHEIRO QUE ELE ME DEU HOJE CEDO PARA ALGUMAS DESPESAS.

DOM BERNARDONE
(Pega a bolsinha de dinheiro e se volta para Francisco de bengala erguida)
SEU MISERÁVEL, AINDA TE PARTO OS OSSOS!...

(Mudam as luzes. Apenas um foco incide sobre Francisco que se posiciona à frente do pai e se curva ligeiramente. Padre Antonio tenta intervir ficando entre Dom Bernardone e Francisco, mas Dom Bernardone o afasta, muda a bengala de mão e aplica uma bofetada em Francisco)

PADRE ANTONIO
TENHA CALMA, DOM BERNARDONE!

FRANCISCO
(Oferece a outra face)
AGORA BATE NESTE LADO, DOM BERNARDONE.

(Irmão Leão puxa um dos braços de Francisco, tentando defende-lo, mas este o afasta)

FRANCISCO
NÃO INTERFIRAS NOS DESÍGNIOS DE DEUS, MEU AMIGO. ESTE HOMEM AJUDA O FILHO A ENCONTRAR A SALVAÇÃO.

(Para Dom Bernardone)
BATE, DOM BERNARDONE, NÃO TE DETENHAS!

(Dom Bernardone, espumando de raiva ergue a bengala para surrar Francisco mas, súbito, se detém com o braço imobilizado no ar, olhos arregalados. Ouve-se o rufar de asas)

DOM BERNARDONE
QUE ANJO MALDITO RETÉM O MEU BRAÇO?

(Dom Bernardone leva a mão ao peito e cai desmaiado. Padre Antonio e Irmão Leão correm a acudi-lo. Dom Bernardone acorda atordoado, se levanta, olha para Francisco e sai de cena amparado por Padre Antonio. Francisco caminha tristemente até a boca de cena, cai de joelhos, e de mãos espalmadas entra em oração. Silêncio. As luzes caem em resistência)

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