segunda-feira, 14 de outubro de 2019

CENA 13

(Noite. Ainda no escuro um bloco simulando uma pedra é instalado em um canto, no centro da cena, representando uma gruta. Uma projeção sobe em resistência mostrando uma paisagem rural nos arredores de Assis. Apenas um foco de luz incide sobre Francisco e Irmão Leão que entram caminhando)

FRANCISCO
NADA SE COMPARA À ALEGRIA DE OBEDECER A VONTADE DE DEUS, LEÃOZINHO.

IRMÃO LEÃO
AH, SUPONHO SABER COMO É ESSA ALEGRIA, SENHOR...

FRANCISCO
E COMO É ESSA ALEGRIA, LEÃOZINHO?

IRMÃO LEÃO
É A MESMA QUE SINTO QUANDO COMO UM LEITÃO ASSADO, SENHOR...

FRANCISCO
NÃO, MEU FAMINTO LEÃOZINHO! A ALEGRIA DE SERVIR A DEUS É INFINITAMENTE MAIOR, SÓ QUE IGNORAMOS.

IRMÃO LEÃO
E QUANDO TEMOS VÁRIAS VONTADES AO MESMO TEMPO, COMO RECONHECER A DE DEUS?

FRANCISCO
A DE DEUS SERÁ SEMPRE A MAIS PENOSA, MEU AMIGO.

(A projeção se apaga. Agora apenas um foco de luz passa a incidir sobre eles. Ouvem-se trovões. Começa a chover. Ambos tentam se proteger com os capuchos)

FRANCISCO
DEUS NOS ENVIA A CHUVA, MAS TAMBÉM OS CAPUCHOS. QUANTA SABEDORIA!

IRMÃO LEÃO
(Como se visse uma gruta)
ALI HÁ UMA GRUTA, SENHOR.

FRANCISCO
COMO É INFINITA A BONDADE DE NOSSO PAI...

IRMÃO LEÃO
GRAÇAS A DEUS NÃO NOS MOLHAMOS MUITO. E COMO FILHO AGRADECIDO, SE NÃO SE IMPORTA, ACHO QUE VOU DORMIR UM POUCO, SENHOR!

(Irmão Leão deita-se exausto, em posição fetal junto ao bloco de pedra. Francisco, em pé, o observa complacente. Logo depois se afasta, caminhando até a boca de cena. Em seguida ajoelha-se e abre os braços para orar. Apenas um foco de luz tênue o ilumina)

FRANCISCO
(Inicialmente, cabeça baixa, balbucia as primeiras frases inaudíveis. Em seguida eleva a cabeça)
A CAPELA... RESTAURADA... OS BENS DE BERNARDONE... DEVOLVIDOS... NÃO FIZ TUDO O QUE MANDARAS, MEU PAI?... QUE MAIS QUERES DE MIM?...

DEUS, EM OFF
QUERO QUE RETOMES O CAMINHO, FILHO, MAS ANTES DEVES SUPERAR O TEU MAIOR MEDO.

FRANCISCO
(Visivelmente assustado, olhos arregalados)
OS LEPROSOS!... TU SABES QUE NÃO OS SUPORTO, SENHOR, NÃO HÁ NADA MAIS REPUGNANTE PARA MIM... POR MISERICÓRDIA, MEU PAI, AFASTA DE MIM ESSE CÁLICE!...

(Francisco deixa cair os braços, pende a cabeça sobre o peito e chora desolado. O foco de luz se apaga em resistência. Silêncio. Ouve-se o cantar de um galo. As luzes indicam um novo amanhecer. Francisco levanta-se lentamente e desperta Irmão Leão)

FRANCISCO
ACORDA, IRMÃOZINHO.

IRMÃO LEÃO
JÁ RAIOU UM NOVO DIA, SENHOR?

FRANCISCO
SIM, UM DIA QUE TEMO SEJA CRUCIAL EM MINHA VIDA!

IRMÃO LEÃO
TIVESTE ALGUM SONHO?

FRANCISCO
SEQUER DORMI, MEU AMIGO. AGORA VAMOS, TENHO UM ENCONTRO PELA FRENTE.

IRMÃO LEÃO
UM ENCONTRO?

FRANCISCO
SIM, LEÃOZINHO, UM ENCONTRO MARCADO POR DEUS.

(Ambos como que saem da gruta e retomam o caminho. Sobe uma projeção em resistência, mostrando os campos da cidade de Ravena)

FRANCISCO
QUE CIDADE É AQUELA AO LONGE, IRMÃO LEÃO?

IRMÃO LEÃO
DEVE SER RAVENA, SENHOR

(Em seguida ouvem-se guizos, anunciando a presença de um leproso)

FRANCISCO
(Para aterrorizado e segura o braço de Irmão Leão)
OS GUIZOS, LEÃOZINHO... O SINAL DE QUE AÍ VEM UM LEPROSO!

IRMÃO LEÃO
FUJAMOS, SENHOR!

FRANCISCO
É IMPOSSÍVEL FUGIR À VONTADE DE DEUS, MEU IRMÃO.

IRMÃO LEÃO
E SE TOMARMOS OUTRO CAMINHO?

(Os sons de guizos aumentam. Entra um leproso coberto de trapos. Ao vê-lo, Francisco dá alguns passos em direção ao proscênio, como se quisesse fugir, mas em seguida para, olha para o alto, faz um sinal da cruz, se desvencilha de Irmão Leão que, em vão, tenta contê-lo, e se precipita de braços abertos na direção do leproso. O leproso parece assustado. Em seguida Francisco para na frente do leproso e o abraça carinhosamente, depois beija-o em ambas as faces. Irmão Leão faz o sinal da cruz)

FRANCISCO
AJUDE-ME, LEÃOZINHO, DECERTO EM RAVENA HAVERÁ UM LEPROSÁRIO ONDE ESTE IRMÃO POSSA SER ACOLHIDO.

(Francisco sai de cena carregando o leproso, seguido de Irmão Leão. Caem as luzes em resistência. Silêncio. Após um breve instante um foco de luz apenas sobe em resistência e incide sobre Francisco que entra e caminha até o centro da cena, seguido de Irmão Leão. Francisco se estira ao solo e chora, rosto colado ao chão, braços abertos. Irmão Leão, logo atrás, se ajoelha e ora em silêncio)

FRANCISCO
TENDES COMPAIXÃO DESTE TEU MÍSERO SERVO, SENHOR. PEROA-ME POR FRAQUEJAR.

IRMÃO LEÃO
 TU NÃO FRAQUEJASTE, SENHOR! EU MESMO AINDA ESTOU SURPRESO COM A DOÇURA COM QUE ABRAÇASTE E BEIJASTE O LEPROSO.

FRANCISCO
SÓ QUE AQUELE NÃO ERA UM LEPROSO, LEÃOZINHO...

IRMÃO LEÃO
COMO NÃO, SENHOR, EU O VI TÃO CLARO COMO A LUZ DO SOL...

FRANCISCO
TU O VISTES COM OS OLHOS DA CARNE, POR ISSO NÃO O RECONHECESTE... ERA CRISTO, LEÃOZINHO, QUE DESCEU DOS CÉUS PARA ME EXPERIMENTAR...

(Entra um camponês caminhando e para diante de Francisco, que ainda chora)

CAMPONÊS
(Para Irmão Leão)
QUE FIZERAM A ESSE HOMEM? FOI ATACADO POR BANDIDOS?

IRMÃO LEÃO
NÃO, AMIGO CAMPONÊS.

CAMPONÊS
O QUE ACONTECEU ENTÃO?

IRMÃO LEÃO
CRISTO VEIO VISITÁ-LO E ELE CHORA DE ALEGRIA!

(Incrédulo e sem entender nada o camponês meneia a cabeça, dá de ombros e sai de cena. Ouvem-se trovões e começa a chover. Francisco levanta-se cambaleante, caminha de braços abertos para o proscênio e sorri. Irmão Leão se aproxima dele e o abraça pelas costas)

FRANCISCO
JÁ NÃO TEMO MAIS NENHUM DELES, LEÃOZINHO... LEPROSOS, INVÁLIDOS, PECADORES... SÓ AGORA COMPREENDO QUE SÃO TODOS MEUS IRMÃOS.

(As luzes caem em resistência. No escuro o bloco de pedra é retirado)

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